A Fábrica do Aterrado do Rio de Janeiro

Aterrado I

A estampa acima, reproduzida do Eco Americano, periódico publicado em Londres em língua portuguesa, mostra a antiga fábrica de gás do Rio de Janeiro em 1871, no Caminho do Aterrado (depois Senador Euzébio, hoje Avenida Presidente Vargas númeo 2610).

O Barão de Mauá, pioneiro da iluminação a gás, havia seis anos antes transferido a concessão desse serviço para a companhia inglesa Rio de Janeiro Gas Company Limited.

O edifício da fábrica, construído entre 1852 e 1854, ocupava todo o quarteirão compreendido entre as travessas de São João e do Porto (atuais ruas Dr. Carmo Neto e Comandante Mauriti).

No corpo central, ficavam os escritório, a oficina de modeladores, o depósito de medidores e dos aparelhos para exame dos registros do combustível, o laboratório e a câmara escura onde se aferia, por meio de fotômetros Bunsen, a força do gás iluminativo. Desta parte do prédio para ambos os lados, prolongava-se o pavimento térreo: um dos corpos era habitado pelos funcionários graduados da fábrica, que dispunham, para seu conforto e recreação, de uma biblioteca com sala de leitura, botica bem provida e tanques para banho. O outro corpo lateral do edifício era ocupado pelos aparelhos purificadores do gás. Os empregados encarregados de acender os lampiões residiam em comum em um vasto salão, e os escravos da empresa ocupavam outro de igual extensão.

No pátio interno ficavam as fornalhas, as retortas, demais aparelhos para produção de gás e os três gasômetros.

No sobrado do corpo central, além da sala do telefone, gabinetes dos aparelhos fotométricos e escritório de plantas e desenhos, havia um salão, alcova e quarto servindo de residência do engenheiro-chefe.

O relógio de quatro faces no torreão é de fabricação inglesa. Depois do incêndio de 6 de abril de 1889 foi restaurado, funcionando até hoje.

Na parte superior da fachada lê-se a inscrição latina: Ex fumo dare lucem (Do fumo, a luz). Muitos consideraram impróprio esse verso de Horácio como legenda ou epígrafe de uma fábrica de gás. Primeiramente, porque não é admissível a confusão de gás com fumo ou fumaça; em segundo lugar, porque outro tinha sido o espírito daquelas palavras que Horácio escrevera para afirmar que a luz duradoura não é que provém do fogo de palha, mas a de robustas madeiras que primeiro fumegam e depois se incendeiam.

Ainda na fachada, ao lado da porta principal do edifício, havia um medalhão de ferro com o seguinte dístico: “Empresário Irineu Evangelista de Souza, Barão de Mauá – Contrato de 11 de março de 1851 – Engenheiro W. G. Ginty”.

Foi também esse engenheiro inglês, William Gilbert Ginty, quem, em 1860, dirigiu as obras de abertura do Canal do Mangue, cuja finalidade era, não somente secar os terrenos circunvizinhos, como permitir navegação a pequenas embarcações que trouxessem gêneros até à cidade. No fim de algum tempo, porém, os resíduos da Fábrica de Gás, o lodo e o cisco obstruíram essa obra, reduzindo-a a um depósito de lama e imundícies.

Na gravura, o Canal ainda está sem o gradil de ferro (recentemente retirado) e sem as setecentas palmeiras que foram plantadas em 1876, nas alamedas marginais.

No primeiro plano, vemos dois bondinhos de burro da Rio de Janeiro Street Railway Company. Como eram veículos do tipo fechado, alguns passageiros preferiam viajar na boleia ou na plataforma de trás – eram os chamados “plataformistas” (“pingentes” dos nossos dias).

2-museu-do-gas Aterrado I Aterrado II

A empresa fora fundada em 1869 com capitais americanos, sendo nacionalizada em 1873 sob a denominação de Companhia de São Cristóvão. Suas linhas partiam do Largo de São Francisco para o bairro de São Cristóvão, sendo posteriormente, estendidas para os do Rio Comprido, Andaraí, Tijuca, Saco do Alferes e Caju. Foi a Companhia que maior número de ramais possuía. Haja visto que em 1906 – vésperas da fase Light, quando se remodelou, unificou e eletrificou o serviço de bondes da cidade – a São Cristóvão contava com mais de 60km de extensão de linhas.

A alguns pode parecer que o autor da gravura, o inglês D. J. Anderson, tenha se enganado, fazendo trafegar os veículos pela mão esquerda. Acontece, porém, que, desde 1856, as primeiras concessões de bondes determinavam que os trilhos seriam assentados daquele lado das ruas. O que não conseguimos apurar foi quando os bondes passaram a trafegar pelo lado direito.

 

 

(Crônica de C. J. Dunlop, em “Chronicas”, livro de 1973.)

*** Texto escrito em 1972. A imagem colorida, registrada em 2008, mostra o mesmo prédio, tombado pelo INEPAC em 1990 onde funcionou, até 1997, o Museu do Gás. O relógio citado na crônica funcionou até 2013; hoje encontra-se parado.

João do Rio e as antigas prisões do Rio de Janeiro

Prisao na periferia no Rio antigo

“A galeria superior”

(Crônica de João do Rio, idos de 1912)

A galeria superior é dividida por um tapume com portas de espaço a espaço para o livre trânsito dos guardas. Os presos não podem ver os cubículos fronteiros. Os olhos abrangem apenas os muros brancos e a divisão de madeira que barra a cal das paredes. Quando a vigilância diminui, falam de cubículo para cubículo, atiram por cima do tapume jornais, cartas, recordações.

Estão atualmente na galeria 238 detentos. A aglomeração torna-os hostis. Há confabulações de ódio, murmúrios de raiva, risos que cortam como navalhas. Com o sentido auditivo educadíssimo, basta que se dirija a palavra baixo a alguém do primeiro cubículo para que o saibam no último. E então surgem todos, agarram-se às grades, com o olhar escarninho dos bandidos e a curiosidade má que lhes decompõe a cara.

Ah! Essa galeria! Tem qualquer coisa de sinistro e de canalha, um ar de hospedaria da infâmia à beira da vida. Nos cubículos há, às vezes, 19 homens, condenados por crimes diversos, desde os defloradores de senhoras de 18 anos até os ladrões assassinos. A promiscuidade enoja. No espaço estreito, uns lavam o chão, outros jogam, outros manipulam, com miolo de pão, santos, flores e pedras de dominó, e há ainda os que escrevem planos de fuga, os professores de roubo, os iniciadores dos vícios, os íntimos passando pelos ombros dos amigos o braço caricioso… Quantos crimes se premeditam ali? Quantas perversidades rebentam na luz suja dos cárceres preventivos? Saciados da premeditação, há os jornais que lhes citam os nomes, há o desejo de possuir uma arma, desejo capaz de os fazer aguçar asas de caneca, o aço que prende a piaçava das vassouras, as colheres de sopa, e há ainda o jogo. Nesses cubículos joga-se mais de 40 espécies de jogos. Eu só contei 37, dos quais os mais originais – o camaleão, a mosca, o periquito, o tigre, a escova, o osso, a sueca, o laço, as três chapas – são prodígios de malandragem. E nenhum deles se recusa ao parceiro. Quando algum desconhecido passa, deixam tudo, precipitam-se, alguns nus, outros em ceroulas, e há como um diorama sinistro e caótico – negros degenerados, mulatos com contrações de símios, caras de velhos solenes, caras torpes de gatunos, cretinos babando um riso alvar, agitados, delirantes, e as mãos, mãos estranhas de delinquentes, finas e tortas umas, grossas alguma, moles e tenras outras, que se grudam nos varões de ferro com o embate furiosos de um vagalhão.

Vive naquela jaula o Crime multiforme. O guarda aponta o Cecílio Urbano Reis, assassino, na Saúde, de uma mulher que lhe resistira; o João Dedone, facínora cínico; matadores ocasionais, como Joaquim Santana Araújo, quase demente; o Mirandinha, mulato, passador de moeda falsa, que se faz passar por advogado, o Barãozinho, gatuno; Bouças Passos, ladrão, assassino; Salvador Machado, o íntimo criado de Tina Tatti; negros capangas com as bocas sujas, que resistem à prisão com fúria; desordeiros temíveis, como o Eduardinho da Saúde, retorcendo os bigodes, cheio de langores; sátiros moços e velhos violadores; o célebre Pitoca, que tem 66 entradas; rapazes estelionatários e até desvairados, com João Manoel Soares, acusado de tentativa de morte na pessoa do senhor Cantuária, que leva, numa agitação perpétua, a dizer:

– Eu sei, foi o bicho… Foi por causa do bicho, hein? Está claro!

Dois baixos-relevos alucinadores, dois frisos da história do crime de uma cidade, ora alegres, ora sinistros, como se fossem nascidos da colaboração macabra de um Forain ou de um Goya, dois grandes painéis a gotejar sangue, treva, pus, onde perpassam, com um aspecto de bichos lendários, os estupradores de duas crianças, de 7 e 10 anos…

Encontro ao lado de respeitáveis assassinos, de gatunos conhecidos, na tropa lamentável dos recidivos, crianças ingênuas, rapazes do comércio, vendedores de jornais, uma enorme quantidade de seres que o desleixo das pretorias torna criminosos. Quase todos estão inclusos, ou no artigo 393 (crime de vadiagem), ou no 313 (ofensas físicas). Os primeiros não podem ficar presos mais de 30 dias, os segundos, sendo menores, mais de sete meses. Os processos, porém, não dão custas, e as pretorias deixam dormir em paz a formação da culpa, enquanto na indolência dos cubículos, no contacto do crime, rapazes, dias antes honestos, fazem o mais completo curso de delitos e infâmias de que há memória. Chega a revoltar a inconsciência com que a sociedade esmaga as criaturas desamparadas.

Nessa enorme galeria, onde uma eterna luz lívida espalha um vago horror, vejo caixeirinhos portugueses com o lápis atrás da orelha, os olhos cheios de angústia; italianos vendedores de jornais, encolhidos; garçons de restaurants; operários, entre as caras cínicas dos pivetes reincidentes, e os porteiros do vício, que são os chefes dos cubículos. Todos invariavelmente têm uma frase dolorosa:

– É a primeira vez que entro aqui!

E apelam para os guardas, sôfregos, interrogam os outros, trazem o testemunho dos chefes.

Por que estão presos? José, por exemplo, deu com uma correia na mão de um filho do cabo de um delegado; Pedro e Joaquim, ao saírem do café onde estão empregados, discutiram um pouco mais alto; Antônio atirou uma tapona na cara de Jorge. Há na nossa sociedade moços valentes, cujo esporte preferido é provocar desordens; diariamente, senhores respeitáveis atracam-se a sopapos; jornalistas velho-gênero ameaçam-se de vez em quando pelas gazetas, falando de chicote e de pau a propósito de problemas sociais ou estéticos, inteiramente opostos a esses aviltantes instrumentos da razão bárbara. Nem os moços valentes, nem os senhores respeitáveis, nem os jornalistas vão sequer à delegacia.

Os desprotegidos da sorte, trabalhadores humildes, entram para a Detenção com razões ainda menos fundadas.

E a Detenção é a escola de todas as perdições e de todas as degenerescências.

O ócio dos cubículos é preenchido pelas lições de roubo, pelas perversões do instinto, pelas histórias exageradas e mentirosas. Um negro, assassino e gatuno, pertencente a qualquer quadrilha de ladrões, perde um cubículo inteiro, inventando crimes para impressionar, imaginando armas de asas de lata, criando jogos, arando rolos. Oito dias depois de dar entrada numa dessas prisões, as pobres vítimas da justiça, quase sempre espíritos incultos, sabem a técnica e o palavreado dos chicanistas de porta de xadrez para iludir o júri, leem com avidez as notícias de crimes romantizados pelos repórteres, e o pavor da pena é o mais sugestionador de reincidência. Não há um ladrão que, interrogado sobre as origens da vocação, não responda:

– Onde aprendi? Foi aqui mesmo, no cubículo.

Recolhida à sombra, nesse venenoso jardim, onde desabrocham todos os delírios, todas as neuroses, é certo que a criança sem apoio lá fora, hostilizada brutalmente pela sorte, acabará voltando. Mais de uma vez, na cerimônia indiferente e glacial da saída dos presos, eu ouvi o chefe dos guardas dizer:

– Vá, e vamos ver se não volta.

Como mais de uma vez ouvi o mesmo guarda, quando chegavam novas levas, dizer para umas caras já sem-vergonha:

– Outra vez, seu patife, hein?

Mas que fazer, Deus misericordioso? Nunca, entre nós, ninguém se ocupou com o grande problema da penitenciária. Há bem pouco tempo, a Detenção, suja e imunda, com cerca de 900 presos à disposição de bacharéis delegados, era horrível. Passear pelas galerias era passear como o Dante pelos círculos do inferno, e antes do senhor Meira Lima, cuja competência não necessita mais de elogios, o cargo de administrador estava destinado a cidadão protegidos, sem a mínima noção do que vem a ser um estabelecimento de detenção.

Qual deve ser o papel da polícia numa cidade civilizada? Em todos os congressos penitenciários, até agora tão úteis como o nosso último latino-americano, ficou claramente determinado. A polícia é uma instituição preventiva, agindo com o seu poder de intimidação, e o doutor Guillaume e o doutor Baker chegaram, em Estocolmo, às conclusões de que uma boa polícia tem mais força que o código penal e mais influência que a prisão.

A nossa polícia é o contrário. Para que a detenção dê resultados, faz-se necessário seja conforme ao fim predominante da pena, com o firme desejo de reformar e erguer a moral do culpado. Que fazemos nós? Agarramos uma criança de 14 anos porque deu um cascudo no vizinho, e calma, indiferente, cinicamente, começamos a levantar a moral desse petiz dando-lhe como companheiros, durante os dias de uma detenção pouco séria, o Velhinho, punguista conhecido, o Bexiga Farta, batedor de carteira, e um punhado de desordeiros da Saúde!

A princípio tomei-lhes os nomes: Manuel Fernandes, Antônio Oliveira, Francisco Queiroz, Martins, Francisco Visconti, Antônio Gomes…

Mas era inútil. Para que, se o crime está na própria organização da polícia? Estão marcados! E eu ia deixar esse canto de jardim sinistro, quando vi uma pobre criancinha, magra, encostada à parede, o olhar já a se encher de sombra.

– Como te chamas?

– José Bento.

Tinha 14 anos, e era acusado de crime de morte. Fora por acaso, o outro dissera-lhe um palavrão… Quem sabe lá? Talvez fosse. E, cheio de piedade, perguntei:

– Vamos lá, diga o que o menino quer. Prometo dar.

– Eu? Ah! Os outros são maus… São valentes, sim, senhor, metem raiva à gente… Até têm armas escondidas! A gente tem de se defender… Eu tinha vontade…de uma faca…

E cobriu o rosto com as mãos trêmulas.

 

 

(In “Os dias passam”, de Paulo Barreto, ou João do Rio – livro de 1912)

 

 

A história da Associação Cristã de Moços (ACM)

A Associação Cristã de Moços, prédio pioneiro na Esplanada do Castelo no Rio.
A Associação Cristã de Moços, prédio pioneiro na Esplanada do Castelo no Rio.

 

Foi um jovem de 23 anos, chamado George Williams (1821–1905), quem fundou, em Londres, no dia 6 de junho de 1844, a primeira Associação Cristã de Moços. Não tardou que surgissem filiais na França, Holanda, Estados Unidos, Canadá, Índia e Austrália, tornando o “acemismo” uma obra de âmbito mundial.

Primeira de todas as associações de caráter internacional, há hoje cerca de 10 mil ACMs, espalhadas em mais de 70 países, com um total superior a 4 milhões de sócios.

Seu fim é educar, seu lema é servir. Não tem intuitos comerciais nem políticos. Não faz, tampouco, propaganda religiosa, posto que tenha ideal religioso – por isso se chama Cristã. Seu emblema é um triângulo equilátero que mostra o equilíbrio dos valores básicos do indivíduo nos seus aspectos espiritual, intelectual e físico. Nesta harmonia encontra-se o homem integral que é, em síntese, o objetivo da Associação Cristã de Moços.

Na América do Sul, a primeira ACM surgiu no Rio de Janeiro a 4 de julho de 1893, numa pequena sala, no sobrado do antigo prédio n.º 79  da rua Sete de Setembro, escritório do Dr. H. C. Tucker. Fundaram-na os Srs. Myron Clark, Nicolau Soares do Couto, José Luiz Fernandes Braga (pai e filho), Manoel Fernandes Braga, o referido Dr. H. C. Tucker, Antônio Luiz Meirelles, Manoel de Camargo, José Antônio de Menezes, L. C. Irwing e Luiz de Paula e Silva, a eles se agregando como sócios fundadores mais 71 elementos de várias profissões.

Em 1896, foi adquirida a primeira sede-própria, na rua da Quitanda n.º 47. Aí viveu a Associação dias gloriosos.

A 22 de outubro de 1913, visitando o Brasil, o coronel Theodor Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos, desembarcou no Arsenal de Marinha, onde foi recebido oficialmente, e se encaminhou diretamente para o prédio n.º 47 da rua da Quitanda, onde teve caloroso acolhimento. O discurso que o eminente estadista então pronunciou foi traduzido para o português, período a período, pelo Sr. Myron Clark, e teve o seguinte começo:

“Mr. Chairman, and you, my friends and hosts: I hope that the Young Men’s Christian Association will, among other things, prevent any from being so ignorant that he can only speak in his tongue. It is, indeed, a very great regret to me not to be able do speak in the Portuguese language without an interpreter!”

A noção de fraternidade, na  Associação Cristã de Moços, uma coisa real e imaculável. Todos ali se estimam, não há choques de interesse, nem podem medrar sentimentos egoísticos. É uma instituição ideal e, efetivamente, de uma vantagem extraordinária para os moços. Nada mais útil, numa grande cidade, onde vivem tantos jovens afastados das suas famílias. Refugiando-se em seu seio, nas horas de suspensão do trabalho, evitam o vício e as seduções malignas.

Dão seu apoio moral e material a este formoso estabelecimento comerciantes e industriais do Rio de Janeiro, que assim conseguem ver os seus empregados estudando e trilhando o caminho da decência e da honestidade.

Em 1929, a Associação Cristã de Moços mudou-se para a rua Araújo Porto Alegre n.º 36, na Esplanada do Castelo, onde foi pioneira (vide fotografia), e, recentemente, transferiu-se para sua nova sede, no vasto edifício da rua da Lapa n.º  40.

Três mudanças em 65 anos! Uma coisa, porém, nunca mudou: seus princípios morais e espirituais – razão mesma de sua existência.

 

(Do livro “Rio Antigo”, vol I, de C. J. Dunlop, 1963)

Augusto Severo, o homem do dirigível

O dirigível criado por Augusto Severo.
O dirigível criado por Augusto Severo.

 

No dia 18 de setembro de 1904, foi inaugurado, no cemitério de São João Batista, o monumento mandado construir para sepultura de um intemerato patrício que pagou com a vida o seu estranhado amor e afoiteza, na tentativa de resolver o problema de navegação aérea: Augusto Severo de Albuquerque Maranhão.

Natural de Macaíba, estado do Rio Grande do Norte, onde nasceu a 11 de janeiro de 1864, veio moço para o Rio de Janeiro, e aqui cursou a Escola Politécnica.

Com o advento da República, ingressou na política, vindo a ser representante do seu estado do Congresso Nacional.

Empolgando-se pelos estudos aeronáuticos, imaginou um tipo de dirigível, e foi construí-lo em Paris. Durante meses trabalhou desse aparelho, que denominou “Pax”.

Na madrugada de 12 de maio de 1902, retirou-o do enorme “hangar” que havia improvisado na rue Vaugirard e o encheu, preparando-se para a primeira experiência. Era de se contemplar aquele estranho engenho, com os motores suspensos por armações de bambu.

Às 5 e meia da manhã, Augusto Severo meteu-se na barquinha, com o seu mecânico francês Sachet, e deu o sinal de “Larga!”.

O “Pax” elevou-se no espaço, silenciosamente. Decorridos apenas 15 minutos, quando o dirigível já se encontrava a 600 metros de altura, explodiu com enorme fragor, caindo os destroços, em volta com os corpos dos dois desditosos aeronautas, no cruzamento da Avenue de Maine com a Rue de La Gaité.

Naquela tarde fatal, os vendedores de jornais no “boulevard” já apregoavam o triste acontecimento: “La catastrophe du Pax!” Les drames de la locomotion aérienne!” “La mort de Monsieur Severo!”* E as sucessivas edições dos jornais percorriam toda Paris sob intensa emoção.

“Il etait 5 h. 45 – informava um vespertino – Le balon planait à environ 600 metres. Tout le monde le regardait avec anxiété lorsque  tout a coup une explosion se fait entendre et il tombe. Avec un bruit effroyable le moteur s’aplatit a terre. On aperçoit alors deux cadavers abominablement mutilés. Le malhereux inventeur devait enlever dans cette ascencion un de ses compatriots, Monsieur Alvaro P. Reis, qui, au dernier moment, a eu la bonne inspiration de s’abstenir. Les débris du “Pax” jonchent le sol entourés par des milliers de personnes. Les cadavres sont lá, au milieu de La chaussée; c’est un spectacle affreux.” **

O dirigível de Augusto Severo era de forma assimétrica, mais grosso em um extremo do que no outro, assemelhando-se a um melão. A barquinha era comprida, medindo 16 metros de extensão. Não tinha leme, efetuando a mudança de direção por meio de duas hélices. A propulsão era no próprio corpo de balão, acionado por dois motores “Buchet”, um de 16 e outro de 24 cavalos, estando um na proa e outro na popa da barquinha. Pesavam estas máquinas 90 quilos.

Dizem uns que o desastre fora ocasionado pela extrema proximidade entre os motores e o corpo do balão; outros, que resultara da explosão de um dos motores. A explicação mais racional, porém, pareceu ser a seguinte: produzira a explosão o hidrogênio que enchia o balão, gás esse que teria escapado do invólucro e entrado em contato com a chama produzida pelo motor.

O fato é que o desastre se deu. E a fatalidade fez perder um heróico pioneiro da aviação.

O corpo de Augusto Severo, depois de embalsamado, foi trazido para o Rio, sendo inumado, com excepcionais honras militares e civis, no dia 18 de junho de 1902.

A fotografia mostra o “Pax”, saindo do hangar, instantes antes do seu voo funesto. Note-se a bandeira brasileira na popa.

 

Notas de tradução:

* “A catástrofe do Pax!” Os dramas da locomoção aérea!” ” A morte do Sr. Severo!”

** “Eram 5:45 – informava um vespertino – o balão pairava a cerca de 600 metros. Todo mundo assistia com ansiedade, quando, de repente, uma explosão foi ouvida e ele cai. Com um ruído aterrador o motor se choca com o solo. Vemos, então, dois cadáveres horrivelmente mutilados. Malhereux, o inventor, devia ter levado nessa ascensão um de seus compatriotas, o Sr. Alvaro P. Reis, que, no último momento, teve a inspiração de abster-se. Os restos do “Pax” jaziam no chão cercado por milhares de pessoas. Os cadáveres estavam lá, no solo; é um espetáculo desolador.”

 

(Do livro “Rio Antigo”, vol. II, de C.J. Dunlop)

 

 

A história do fotógrafo Augusto Malta

Augusto Malta, de terno escuro, foi um dos principais fotógrafos do Rio de Janeiro.
Augusto Malta, de terno escuro, foi um dos principais fotógrafos do Rio de Janeiro.

Major da Guarda Nacional, Augusto Cesar Malta de Campos, ou melhor, o fotógrafo Malta, como é mais conhecido, é o profissional mais antigo do Rio de Janeiro. Possui ele um arquivo completo dos acontecimentos mais importantes desta cidade, nos últimos 50 anos, com toda a história da sua transformação, todas as realizações da Prefeitura, documentada em mais de 30 mil chapas.

O carinho que tem por essa história e por essas fotografias é quase uma religião para ele. Malta esquece tudo para ir buscar uma fotografia antiga e com ela tirar uma dúvida sobre uma data ou um episódio qualquer da história do Rio de Janeiro.

Funcionário municipal aposentado, contando 93 anos de idade, goza de uma saúde de ferro. “Não acredito em outros mundos, diz ele. Morrer é descuido. Eu pretendo chegar aos 120 anos!”

Augusto Malta reside em Niterói, na praia das Flechas, onde toma diariamente o seu banho de mar, mas vem sempre ao Rio rever os amigos e matar saudades. Traz consigo, invariavelmente, uma volumosa pasta, mais parecendo uma mala portátil, atulhada de fotografias do mais vivo interesse para a história carioca.

Malta não começou a vida como fotógrafo. Em fins de 1888, vindo de Alagoas, onde nasceu na cidade de Paulo Afonso, empregou-se no comércio, como auxiliar de escrita. No ano seguinte, já era guarda-livros da firma Leandro Martins. Nesse ano, presenciou fatos memoráveis: viu quando Deodoro da Fonseca foi ao encontro da tropa, na antiga praça da Aclamação, no dia 15 de novembro, e ouviu quando Sampaio Ferraz deu vivas à República que nascia.

Como republicano ardoroso que era, assinou, no Paço Municipal, a ata da Proclamação, cujo original está guardado no Museu da cidade, e seguiu à frente da massa popular como porta-estandarte do “Centro Republicano Lopes Trovão”, que foi a bandeira dos nossos primeiros dias da República.

Depois, estabeleceu-se por conta própria, com uma casa de molhados, na rua do Ouvidor, canto de Uruguaiana, mas o negócio não foi avante. “Dei com os burros n’água”, diz ele.

Mudando de profissão, passou a vender fazendas por amostras, tornando-se o precursor dos vendedores a prestação. Montado na sua bicicleta, visitava diariamente a freguesia, que era das mais seletas. A Sra. Campos Sales, a Viscondessa de Guai (Sra. Joaquim Elísio Pereira Marinho) e outras damas da alta sociedade, embora não comprando a prestação, davam preferência ao amável vendedor que lhes levava a mercadoria em casa.

Foi nessa época que um amigo despertou em Augusto Malta a idéia de tornar-se fotógrafo profissional, quando lhe propôs a troca de sua bicicleta por uma máquina fotográfica. O negócio foi aceito, e nessa sua nova função tomou contacto com o prefeito Francisco Pereira Passos que, apreciando a sua atividade e gostando dos seus trabalhos, criou para ele, em julho de 1903, o lugar de fotógrafo municipal. Daí o acervo extraordinário de fotografias que possui sobre a evolução da cidade, a qual acompanhou dia a dia, com alma de verdadeiro artista.

Na fotografia, por ele próprio tirada em 1913, vemo-lo de terno escuro com os irmão Bernardelli, Rodolfo (escultor) e Henrique (pintor).

 

(Crônica de C. J. Dunlop, do livro Rio Antigo, vol. II, 1956.)

 

*** Nota dos editores: Malta, nascido em 1864, faleceu no ano seguinte a esta crônica, no Hospital da Ordem Terceira da Penitência, no Rio de Janeiro, em 30 de junho de 1957.

 

 

Quando CJ Dunlop sugeriu uma crônica a Rubem Braga

Crônica de Rubem Braga com menção a CJ Dunlop. Reprodução dos arquivos da família Dunlop.
Crônica de Rubem Braga com menção a CJ Dunlop. Reprodução dos arquivos da família Dunlop.

 

Charles Julius Dunlop nasceu em 1908 e nos deixou em 1987. Rubem Braga veio ao mundo em 1913, partiu em 1990. Não se sabe se um dia apertaram os ossos, aqui ou além, mas se admiravam. É o que atesta este recorte encontrado na pasta nº 1 dos arquivos do velho CJ, guardados em gavetões de ferro na região de Petrópolis.

A crônica de Braga foi publicada na “Folha da Tarde” em 9 de março de 1954. A pepita entrou no livro “A traição das elegantes”, de 1967, com o nome de “Nós, imperadores sem baleias” e outras adaptações. Este é considerado um dos melhores textos do escritor capixaba, e está na antologia “200 crônicas escolhidas de Rubem Braga”. Ainda que o velho Braga ou algum datilógrafo tenha invertido as iniciais, o colega CJ curtiu, e a guardou com estima.

Para saber mais sobre o velho Braga, clique aqui.

Remo: as primeiras regatas do Rio de Janeiro

Por CJ Dunlop

Gravura da primeira regata da Sociedade Recreio Marítimo.
Gravura da primeira regata da Sociedade Recreio Marítimo.

 

A primeira “carreira” ou “aposta” de barcos no Rio de Janeiro parece ter sido a de que dá sucinta notícia o “Jornal do Comércio” de 20 de agosto de 1846. Realizou-se ao longo da praia de Santa Luzia, entre duas canoas – a Lambe-Água e a Cabocla.

Passados três anos, na manhã de 25 de julho de 1849, teve lugar, na enseada de Botafogo, outra disputa entre quatro escaleres – Atalanta, Esmeralda, Mistério e Pérola, organizada por João Manoel de Azêvedo Côrte Real. Os barcos se distinguiam por cores: o primeiro era pintado de branco e escarlate; o segundo, de branco e verde; o terceiro, de branco e azul, e o quarto, todo branco. Houve cinco páreos, sempre com os mesmos escaleres. As apostas foram animadas, havendo algumas de quantias avultadas.

Firmando-se entre nós o gosto pela canoagem, Côrte Real e outros aficionados do remo fundaram a Sociedade Recreio Marítimo, que realizou a primeira regata “oficial” do Rio de Janeiro, na tarde de sábado de 1º de novembro de 1851.

“A escolha do sábado”, explicou a diretoria da Sociedade”, foi determinada porque a maior parte dos sócios e amadores que tomarão parte da nos diferentes páreos pertence à classe do comércio e muito dentre eles, por princípios religiosos, não podem, nos domingos, entrar em trabalhos dessa ordem”.

O local escolhido foi a enseada de Botafogo, entre a fortaleza da Praia Vermelha e a antiga ponte das barcas de Botafogo, numa distância aproximada de mil braças (cerca de 1.830 m).

Às 3 horas da tarde, a praia já estava cheia de espectadores e o mar coalhado de pequenas embarcações de todas as formas e feitios. Aguardava-se a chegada da Família Imperial, que prometera honrar a competição com sua augusta presença no palacete do Visconde de Abrantes.

Pouco antes das 4 horas, seis bandas de música, embarcadas nos vapores anunciaram a chegada de Suas Majestades Imperiais, tocando a um tempo o Hino Nacional.

Às 4:25h o iate Narceja, fundeado nas proximidades da Praia Vermelha, deu o tiro de partida pata o primeiro páreo, composto de escaleres da Marinha de Guerra e da Alfândega. Venceu a canoa da escuna Argos, da Marinha. O segundo foi também disputado entre a maruja da Alfândega e da Marinha, vencendo a canoa do Capitão do Pôrto. No terceiro e quarto páreos, entre escaleres da marinha mercante, sagraram-se vencedoras as guarnições da galera inglêsa Alice e do vapor austríaco Elodel.

O quinto páreo estava assim organizado: escaleres Ninfa e Rosa, com remadores brasileiros; Pérola, com alemães; Estrêla do Sul, com americanos; Atalanta, com inglêses e portuguêses, e Esmeralda, com inglêses. Venceu Ninfa, seguido de perto pelo Pérola.

O sexto páreo foi disputado entre o escaler do vapor inglês Plumper e o do Ministro da Marinha, e o sétimo entre o escaler do vapor Cormorant e o do inspetor do Arsenal.

Devia haver um oitavo e último páreo, o dos vencedores, mas estes escusaram-se, cedendo a palma a Ninfa, que foi proclamado “Vencedor dos Vencedores”.

Às 6 horas da tarde, passaram os remadores em cortejo pela escuna Argos, onde estavam os juízes da regata, diretores da Sociedade Recreio Marítimo, muitas autoridades da Marinha com suas famílias e convidados, sendo todos vivamente aplaudidos. De pé nas bancadas de seus escaleres, com os gorros na mão e os remos ao alto, corresponderam, agradecendo as aclamações.

Seguiu-se a distribuição dos prêmios aos vencedores e, finda a solenidade, teve início um grande sarau dançante a bordo do barco “Antelope”, transformado em casa de baile.

A gravura mostra um aspecto dessa primeira regata da Sociedade Recreio Marítimo.

 

(Originalmente publicado no livro “Rio Antigo”, vol. III, de C. J. Dunlop, 1960.)

A história e a receita do sucesso da Confeitaria Colombo

Por CJ Dunlop

A gravura, reprodução de um desenho de Henrique Cavalleiro, do comêço do século, mostra o antigo prédio ns. 34/36 da rua Gonçalves Dias, constituído de loja e sobrado.
A gravura, desenhada por Henrique Cavalleiro, mostra o antigo prédio 34/36 da rua Gonçalves Dias, no Centro do Rio.

 

Foi numa segunda-feira, dia 17 de setembro de 1894, que se inaugurou, na rua Gonçalves Dias, o estabelecimento comercial que viria a se transformar no “resumo da história intelectual e galante da cidade” – a Confeitaria Colombo. Fundaram-na dois lusitanos: Manoel José Lebrão e Joaquim Borges de Meireles.

Segundo Leôncio Corrêa, a fundação da Colombo pareceu providencial. Nela foi estabelecido o terreno neutro, onde os corações desavindos se reconciliavam e fraternizavam. Valeu pelo desabrochar do primeiro sorriso, largo e sereno, do Rio de Janeiro, após luta tremenda da Revolta da Armada, que abrira chagas nas almas e nos corações, ao que parecia, de difícil cicatrização.

Conquanto fosse bem arranjado, não logrou o estabelecimento, desde logo, desbancar as suas congêneres, principalmente a Confeitaria Pascoal, que continuou por muitos anos em pleno fastígio, como “ponto de reunião do mundo elegante, dos paredros da terra, dos grandalhões da literatura, do alto comércio e das finanças”.

No fim do século, porém, dois fatos coincidentes fizeram deslocar para a rua Gonçalves Dias o cenáculo literário que vivia na rua do Ouvidor: o primeiro foi quando, em 1898, passando Meireles a sócio comanditário, ficou Lebrão à testa da firma. Espírito progressista, tratou de mudar a refinação de açúcar e a fábrica de doces para outro local. Em seguida, reformou as instalações, transformando o estabelecimento num grande e luxuoso bar-confeitaria.

O outro fato é que, quase ao mesmo tempo, deu-se uma desinteligência entre Olavo Bilac (Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac) e o gerente da Pascoal, culminando na mudança do excelso poeta para a Colombo, com toda a sua roda de amigos.

A gravura acima é reprodução de um desenho de Henrique Cavalleiro, do começo do século. Mostra o antigo prédio números 34/36 da rua Gonçalves Dias, constituído de loja e sobrado. O salão – conforme descreve Luiz Edmundo – era pequeno. As mesas também. De grande, na casa, só a tabuleta, fora, toda em lona, esticada num painel enorme sôbre um “chassi” de madeira, pesando no gradil da sacada de ferro.

Junto a uma das portas de entrada, bem à vista, havia um empadário de ferro e cristal e, mais para o centro do salão, um outro, ambos aquecidos, ambos a fumegar entre nuvens ligeiras de fumaça, porque empadas, empadões, maravilhas, croquetes e pastéis, bem como toda a gama de petiscos da regional pastelaria, só se compreendiam, no tempo, quando a ferverem, a queimarem…

Cada empadário – é ainda Luiz Edmundo quem conta – mostrava, à porta, o “seu” Cérbero, montando guarda, o olho aritmético em vigia, para que o freguês não abusasse dos erros de soma, lesando a caixa. Cérbero, no entanto, não intervinha na escolha do manjar; olhava sòmente, contava, fiscalizava. Se lhe indagavam, porém:

– Quanto a maravilha de siri?

Respondia:

– Dois tostões.

E, na hora de pagar, quando ouvia o freguês:

– Creio que comi oito pastéis…

Corrigia:

– Comeu nove…

No sobrado do edifício ficavam os dormitórios dos empregados e no prédio contíguo, de número 32, que se comunicava com a Confeitaria, estava localizado o armazém de comestíveis, inaugurado em fins de 1898.

 

 

(C. J. Dunlop, Rio Antigo, vol II, 1956)

 

 

 

 

As primeiras escaladas no Pão de Açúcar

Registro do morro do Pão de Açúcar, na Urca.
Registro do morro do Pão de Açúcar, na Urca, no começo do século XX.

 

 

Não há memória de que alguém haja escalado o Pão de Açúcar antes de 1817. Neste ano, porém, consta que lá subiu uma destemida inglesa, cujo nome não se sabe. Conduzindo nas mãos a “Union Jack”, arrojadamente aventurou-se pela rocha ínvia e, depois de horas de esforços inauditos, logrou realizar a temerosa façanha, fincando no cume do morro, em solo virgem, a bandeira britânica. Foi um acontecimento que empolgou toda a cidade, pelo cunho de audácia e sensacionalismo.

Um soldado lusitano, no entanto, enxergou nisso uma afronta e, no dia seguinte, escalou o penhasco, arrancou a bandeira inglesa e a substituiu pelo pavilhão real português. Valeu-lhe a patriótica proeza sua baixa do serviço militar.

Alguns anos mais tarde, dois oficiais da marinha britânica repetiram a façanha de sua patrícia. Um grupo de patriotas reuniu-se e resolveu também tirar de lá a bandeira inglesa, considerada uma ofensa aos brios nacionais. Partiram naquela mesma noite e, já de madrugada, tremulava no píncaro do penedo o pendão auriverde.

Seguiram-se outras ousadas ascensões ao alto do Pão de Açúcar, como a de 1838, por uma mulher que se chamava nada menos que dona América Vespucci.

A 31 de outubro de 1851, uma caravana de dez pessoas, organizada pelo dentista Burdell, entre as quais duas senhoras e um menino de dez anos de idade, também escalou a famosa montanha. Eram todos norte-americanos, com exceção de um, inglês.

Começaram a subida ao meio-dia, vencendo a primeira etapa à 1 hora da tarde. Após pequeno descanso, começaram a segunda subida, mais difícil e perigosa. Às 2 horas chegaram à terceira, que é quase perpendicular e tem uns 70 pés de altura (cerca de 21 metros). Finalmente, às 5 horas da tarde estavam todos no cume, tendo o menino chegado em primeiro lugar.

Soltaram foguetes, e à noite uma enorme fogueira iluminou o alto do morro, como uma coroa de fogo.

“Depois de contemplarmos a cidade e arrabaldes – contou um dos alpinistas – fomos descansar às 11 horas; não dormimos, pois todos, menos o menino, estávamos demasiadamente deslumbrados pelo espetáculo. As luzes longínquas, o zunir do vento e a grande altitude, como que nos separavam do resto do mundo”.

Ao alvorecer, hastearam as bandeiras do Brasil, dos Estados Unidos e da Inglaterra, e às 8 horas começaram a descida, chegando ao ponto de partida sem o menor acidente.

Um dos excursionistas encontrou no caminho uma bala de artilharia, que trouxe como troféu da campanha, parecendo ter sido atirada da fortaleza de Santa Cruz.

Depois dessa aventura, as escaladas do Pão de Açúcar tornaram-se frequentes.

No dia 30 de junho de 1887, partira para Europa, devido a grave enfermidade, o Imperador D. Pedro II. Por ocasião do seu regresso, a 22 de agosto de 1888, os briosos alunos da Escola Militar, arrostando os maiores perigos, subiram pela encosta do penedo e, lá no alto, arvoraram a bandeira nacional, estendendo do lado do mar um enorme pano verde sobre o qual se destacava em grandes letras amarelas, a palavra “SALVE!”. Cada letra media oito metros de altura. O Imperador, emocionado, cumprimentou, depois, um por um, os cadetes audazes.

A fotografia mostra o penhasco do Pão de Açúcar, no começo do século XX. No primeiro plano, vê-se o antigo edifício da Escola Militar, com a sua fachada de 180 metros de extensão. Inaugurado por D. Pedro II no dia 5 de fevereiro de 1859, foi remodelado em 1908, para servir de Palácio das Indústrias na grande Exposição Nacional; de 1913 a 1919, nele esteve a Escola do Estado Maior do Exército; por último, foi quartel do 3.º Regimento de Infantaria, sendo demolido após a revolução comunista de 1935.

 

                   (Do livro “Rio Antigo”, vol.II, de C. J. Dunlop, 1956)

Os bastidores da proclamação da República no Brasil

Caricatura da época, Major Solon
Caricatura do major Solon à época da proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

 

Dentre os que tomaram parte no movimento revolucionário de 15 de novembro de 1889, que culminou na proclamação da República, o major Frederico Solon Sampaio foi, sem dúvida, um dos elementos de maior destaque, tendo desempenhado papel decisivo na organização e desfecho final do golpe.

Na ante-véspera, ele, Benjamim Constant e Quintino Bocaiúva reuniram-se no escritório deste último, na rua do Carmo, a fim de confabular sobre o movimento projetado e marcar o dia de sua eclosão.

Benjamin era de opinião que nada, em definitivo, se poderia resolver, pois no dia seguinte ainda devia conferenciar com alguns amigos do Club Naval. Só depois disso é que poderiam fixar a data.

Quintino, vivamente apoiado por Solon, achava que estaria abortada a revolução, se ela não rebentasse até o dia 15.

“Com a impetuosidade de um fanático” – escreveu mais tarde Quintino Bocaiúva – “o major Solon, tomando uma fôlha de papel, propôs que aí exerássemos a nossa firme resolução de proclamar a República no dia 15 de novembro, jurando que essa resolução era inabalável e que nos exporíamos a todos os riscos que sobreviessem. A isso opus-me eu, ponderando que os três homens, que ali estávamos, eram sinceros e leais, e que nenhum de nós precisaria oferecer ou pedir garantia que assegurasse nossa fidelidade à causa de revolução e da República”.

Retirando-se Benjamim, continuaram os dois a conferenciar, combinando um encontro no dia seguinte, à noite, no largo de São Francisco de Paula.

Nessa noite, no entanto, espalhou-se pela cidade o boato de que Benjamim Constant e também o general Deodoro da Fonseca haviam sido presos, por ordem do Govêrno.

Fôra o próprio major Solon quem emaranhara essa série de supostos acontecimentos, propalando-os, como uma bomba, nas principais ruas do centro: ”O Govêrno acaba de resolver, não só o embarque de várias unidades do nosso Exército, com sede no Rio de Janeiro, para diversos pontos do Brasil, como a prisão do general Deodoro e do dr. Benjamim Constant”.

A notícia correu célere, de bôca em bôca, indo bater, como desejava Solon, aos quartéis.

Como Quintino sabia onde, àquela hora, devia achar-se Benjamim, mandou um emissário ao Club Naval, pedindo notícias suas. Pelo mesmo portador, Benjamim mandou dizer que tudo ia bem, estando o movimento marcado para domingo, dia 17.

“Fui imediatamente procurar o major Solon” – é ainda Quintino que conta – “e expus-lhe os meus receios, ficando, afinal, deliberado entre nós que, apesar do recado do dr. Benjamin Constant e da prostração em que se achava, por enfêrmo, o general Deodoro, o movimento se efetuaria na sexta-feira. Ao meu ilustre amigo, o dr. Benjamim Constant, mandei então dizer que era tarde, que a revolução teria lugar no dia seguinte, fosse qual fosse o resultado”.

Foi nesse memorável encontro com Quintino, que o major proferiu a célebre frase: “Amanhã ou nunca!”

E, assim, chegou o 15 de novembro.

Solon Ribeiro, que se vê numa caricatura da época, faleceu nesta capital, a 10 de janeiro de 1900, no pôsto de general de brigada.

 

(Do livro “Rio Antigo”, vol II, de C.J. Dunlop, 1956.)