Ascensão do balão “Portugal”

Por CJ Dunlop

Praça da República, em 21 de maio de 1905. Foto: Arquivos Charles Julius Dunlop.
Praça da República, em 21 de maio de 1905. Foto: Arquivos Charles Julius Dunlop.

O mês de maio de 1905 traz à lembrança um acontecimento que, por constituir espetáculo nôvo para a população carioca, despertou em tôda a cidade uma viva e justa curiosidade: a ascensão do balão “Portugal”.

Por duas vêzes, nos dias 7 e 21 daquele mês, o povo afluiu ao jardim da praça da República, a fim de assistir à arrojada proeza do aeronauta português Guilherme Magalhães Costa. Moço ainda, com trinta e poucos anos de idade, capitão da marinha mercante, natural de Vila Nova de Gaia, dedicara-se ao arriscado “sport”, já tendo feito diversas ascensões em vários pontos de Portugal e também na França. O enorme aeróstato fôra fabricado em Paris, mas a sêda do envoltório, de côr avermelhada, era japonesa. Comportava 30 toneladas de gás, fornecido pela Société Anonyme du Gaz por meio de um encanamento improvisado, trazido da rêde geral pelo portão do jardim em frente à rua do Hospício (atual Buenos Aires). Na barquinha podiam viajar até seis pessoas.

Na clareira central do parque, onde se mantinha cativo o “Portugal”, por meio de pesados sacos de areia, armara-se um cercado de madeira circular, em tôrno do qual havia uma fila de cadeiras destinadas a aluguel.

Por ocasião da priemira ascensão, o dia estava deslumbrante, céu límpido, todo azul. Esta circunstância e o fato de ser domingo concorreram para que, dêsde cedo, comparecesse enorme multidão de espectadores.

Ao meio-dia, abertos os portõs do parque, o povo começou a entrar, aglomerando-se, curioso, em tôrno do balão. Carruagens elegantes e cavaleiros trotando pela alamedas de jardim davam um aspecto ainda mais festivo ao local. Num corêto tocava a banda de música da Marinha.

Pouco depois das 3 horas da tarde, o cap. Magalhães Costa mandou fechar o registro do gás: estava cheio o balão. Em seguida, saltou para dentro da cêsta, juntamento com o fotógrafo da “Gazeta de Notícias”, Paulino Botelho, saudou o público e deu a ordem de largar.

O “Portugal” subiu veloz, demandando o espaço, enquanto cá em baixo a multidão prorrompia numa estrondosa ovação. O balão tomou a direção do Canal do Mangue, São Cristóvão, passou pelo antigo prado do Jóquei Clube onde os aficionados das corridas o saudaram efusivamente, rumou para os lados da Tijuca e Inhaúma e desceu às 4,40 h, no lugar denominado Capão do Bispo, no Méier.

Quando da segunda ascenção, um domingo também, o dia estava encoberto, pouco propício à arriscada façanha, pois ventava muito. Não obstante, considerável multidão afluiu ao jardim da praça da República.

Às 10 horas da manhã começou o trabalho de enchimento do balão com gás da iluminação pública, tarefa que terminou às 2,45 h da tarde. Já então era enorme o número de pessoas presentes, muitas das quais munidas de binóculos.

Afinal, o cap. Magalhães Costa e o fotógrafo da “Gazeta de Notícias” tomaram seus lugares na barquinha. Dada a largada, o balão elevou-se num ímpeto, quase na vertical, sob entusiásticas aclamções do povo, e tomou o rumo do antigo morro do Senado. A fim de se desviar dêsse obstáculo, o aeronauta despejou o lastro, mas foi colhido por forte ventania. O balão subiu a mais de 800 metros e passou pelo largo do Machado, em direção a Botafogo, a uma grande velocidade. A situação tornara-se perigosa. Percebendo que não seria possível conservá-lo mais tempo no ar, o aeronauta funcionou a válvula de descida e o balão veio ter à terra no sopé do morro da Viúva. A multidão acorreu até lá e por longo tempo aclamou o “arrojado viajor dos ares”.

A fotografia mostra um aspecto da praça da República, no dia 21 de maio de 1905, vendo-se o público aguardando a abertura do portão do jardim, em frente ao antigo Quartel General.

(Por CJ Dunlop, originalmente publicado em: "Rio Antigo volume 1")

 

 

Paul McCartney não tem vez no Braseiro da Gávea

Por Marcelo Dunlop

Baixo Gávea. Foto: TravelHunter.com
Baixo Gávea. Foto: TravelHunter.com

 

Quando a crise convida ao pessimismo ou ameaça descambar na depressão, está na hora de lembrar Otto Lara Resende. O jornalista mineiro, exímio contador de histórias, defendia que não havia maneira mais sensata de buscar o equilíbrio durante as travessias turbulentas do que alinhar a alta literatura e a baixa gastronomia. Livros, bons livros, para rebater o amargo das manchetes diárias, e bares, bares mequetrefes, para molhar a goela com generosas doses de otimismo.

Contava Otto (1922–1992), numa crônica célebre, que durante uma crise com tanques na rua e greve geral ele e o amigo Rubem Braga pegaram o carro em Ipanema com destino certo: o Bar Luís, botequim na rua da Carioca de onde puderam avaliar todos os contrastes da situação, em especial entre o chope claro e o escuro. “O bar estava aberto e o chope, esplêndido”, avalizou o escritor. Hoje ainda não há tanques no Rio de Janeiro, só torpedos dos pilantras de sempre no Congresso, mas o clima pesado da política pedia um refúgio.

A semana começava, e lembrei então que era uma segunda-feira diferente. O Braseiro da Gávea, um dos pé-limpos mais queridos do Rio de Janeiro, reabriria após seco e tenebroso inverno. Contra o baixo astral, zarpei para o Baixo para recuperar a fé nas boas coisas da vida. De longe, já avistei rostos camaradas procedentes de todos os cantos da cidade. Um amigo de Copacabana trazia o violão guardado na caixa. Outro, da Gávea, estava de muletas, com o joelho recauchutado. Um outro vinha do Panamá. Otto e o velho Braga aprovariam o chope, que estava esplêndido. Mas eu não estava lá para beber nem para conversar, e sim para traçar planos grandiosos para a nação e restabelecer a confiança em nossas instituições. Mal cheguei, portanto, e abri a nossa improvisada sessão extraordinária com uma criativa frase de efeito: “Meus amigos, a coisa está feia.”

A réplica de um dos excelentíssimos presentes não tardou: – É porque você não viu aquele grupo de moreninhas ali. E logo um aparte: – Esse é o Braseiro, o bar zero a zero mais famoso do planeta! Um dos nobres conferencistas pediu um aparte para elogiar o novo CD do Moacyr Luz, em especial o samba de Moa em parceria com Nei Lopes. A canção, “Na vaselina”, defende “que o Rio ainda é o Rio / Mudou, mas ainda persiste aquela norma antiga / Que toda grande bronca, confusão e briga / Fica no bar…”

Outro ilustre palestrante pediu a palavra e inquiriu se os demais casados ao chegarem em casa ainda teriam de lavar a louça. Antes que o tema descambasse para marca de detergentes, um honorável presente foi buscar mais chopes.

Era preciso descongestionar a pauta, e o assunto agora era Cultura Estrangeira: argentina ou brasileira, que mulher é a mais bonita? Relações Exteriores: “Porra, o Alfredinho do Bip-Bip viajou para Cuba!” Não, ele não vai abrir a primeira filial de seu pé-sujo em Havana. Liberalização das drogas: “Soube do casamento do Dudu no sábado? Puseram uns barbitúricos nas bebidas dos coroas, ficou geral muito doido!” Cultura e Teatro: “Não foi a ex dele que fez uma ponta numa peça do Zé Celso onde ela por duas horas fingia tocar siririca no palco?”

Eis que, porém, uma situação grave demandou confabulações e o ensaio de medidas drásticas. Não havia mais tulipas de vidro. Um breve inquérito concluiu: o chope comprado no balcão viria em lamentáveis copos de plásticos. Formou-se rapidamente uma comissão e debateu-se o que fazer. Devolução do dinheiro? Panelaço? Mostrar a língua? Decidiu-se em bloco beber assim mesmo.

Bateu a fome, e reparei na quantidade de travessas de picanhas mal-passadas e linguiças fumegantes que iam e vinham pelas mesas do restaurante, abarrotado de atrizes, DJs, músicos e outros antenados moradores do bairro. O que Paul McCartney, o artífice da campanha mundial “Segunda-feira Sem Carne” por um planeta melhor, acharia de nós? Uns bárbaros sem coração, na certa.

Lembrei disso e pedi um coraçãozinho de galinha para viagem. Tenho certeza de que até o velho beatle compreenderia nosso momento difícil e não ficaria na bronca. Despedi-me dos camaradas e fui para casa assobiando, de alma lavada e cabeça erguida, pronto para enfrentar a crise até o caos, como o sábio Otto ensinava.